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Amar no impossível

por Closet, em 02.06.11

 

Era no impossível que ela amava.

Como mandar cartas de amor a um cego, cantar serenatas a um surdo e desejar palavras arrebatadoras de um mudo. Era assim que ela o amava, de forma inútil, ingrata e deficiente.

Como um relógio desacertado no tempo, onde os ponteiros se encravaram. O relógio, já não servia para nada. Mas os ponteiros atraíram-se, como dois corpos perdidos enferrujados. Pensava que era isso que lhe faltava. O físico para além do som das palavras, do riso dos gestos, para além dos beijos ardentes, da língua e das mãos a deslizar pelos corpos arrepiados. Possui-lo por instantes cegos-surdos-mudos, o corpo dele ser dela, um desejo antigo, perdido, por concretizar. Pensava que esses instantes de posse eram tudo o que faltava, como se possui-lo por instantes sôfregos e carnais fosse muito mais do que isso. Como se bastasse para deixar de senti-lo por dentro, de pensá-lo e deseja-lo.

Era no impossível que ela amava. E é nele que continua a mandar cartas a cegos, cantar serenatas a surdos e a esperar que surjam da boca de um mudo as palavras mágicas, aquelas que tornem possível ela voltar a amar.

publicado às 19:38


5 comentários

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De viajanteintemporal a 02.06.2011 às 23:15

Gostei!
Principalmente da raiz quadrada do coração e de enviar cartas de amor a cegos;)
Cada vez mais fico com a ideia que somos todos cegos em alguma coisa e que, por vezes, se acende uma luz que nos abre os olhos para, novamente se apagar e ficarmos às escuras.
Assim como o amor. Concordo que é exactamente como na imagem, uma teia complicada de equações que parecem intrasponíveis mas que depois de decifradas se tornam uma matemática simples.
Beijinhos
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De Closet a 03.06.2011 às 22:31

eu nunca tenho certezas... mas se tivesse, seria muito provavelmente que somos todos cegos de alguma forma... e não existem diopetrias capazes de resolver este problema "oftomático" !!
Beijinhos

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