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Fábrica de Histórias

por Closet, em 06.02.11

 

 

Página em branco

 

Sinto-me assim,  como uma cama vazia desfeita, como uma página em branco no meio de um livro grosso.

 

No infinito procuro palavras para me escrever. Respostas capazes de me explicar...

Escavo-me com garras por dentro, onde só encontro letras soltas, desconexas. Perdidas em mim, escritas a restos de uma tinta invisível, indecifrável. Caracteres irreconheciveis, por vezes gastos.

«O que quero?» o eco fulmina ensurdecedor numa insónia incómoda e repetitiva. Levanto-me num sonambolismo rouco e fujo da pegunta.

 

Depois lembro-me que escrevo sempre a lápis, talvez porque posso apagar qualquer parte. Passar uma borracha por cima. Começar de novo, sem deixar rasto. Como uma tela virgem à espera das pinceladas cor, posso deixar novamente a página em branco. Escrever tudo outra vez, com outro início ou um final diferente.

Posso ser outra. Relato-me. Melhor ou pior, mas posso voltar a ser. Ou deixar-me ficar, por algum tempo, em branco. Sem nada escrever. Ficar assim indefinida, sem perguntas que sufocam, ou respostas que criticam. Sem obrigações gramaticais, sem verbos, sujeitos ou adjectivos.

Ficar em branco, sem complementos, é como entrar numa bolha que flutua sem ninguém perceber. É andar à deriva sem planos... como um intervalo de vida, uma pausa para não ser.

 

Folheio as páginas para trás e encontro frases numa língua que já não compreendo, como se uma amnésia se apoderasse de mim. Volto as páginas assustada e chego à parte em que não existe nada. A página onde estou parada, os personagens imóveis aguardam acção e há um medo cortante de avançar. Num palco de plateia gigante, de luzes ofuscantes, a pressão de continuar. Abrem-se as cortinas, pega-se no lápis afiado.

 

Há dias em que me sinto vazia, como uma página em branco. E tudo o que escrevo é a lápis, mesmo sabendo que nem sempre posso apagar.

 

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

 

publicado às 22:37


8 comentários

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De miúda* a 07.02.2011 às 12:25

A parte boa de ser ser uma página em branco é que estamos sempre dispostos a absorver o que nos rodeia. Adquire-se aquela cor e aquelas palavras por um dia, para aquele dia, no seguinte vira-se nova página do livro que nos define. Escrever a lápis é apenas uma precaução automática para se viver com uma rede por baixo sabendo que temos sempre pé onde cair.
estar vazia é apenas sinal que se tem o mundo todo para captar :)
Beijinnhooo
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De Closet a 09.02.2011 às 02:01

Talvez seja mesmo esse o meu problema... ver demasiadas coisas para captar, é assustador :)
Beijinhos****
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De viajanteintemporal a 07.02.2011 às 22:32

Gostei muito desta tua página, que de branco só tem a clareza de espirito, porque de resto, é uma página carregada de cor. Beijos
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De Closet a 09.02.2011 às 02:02

Há quem diga que o Branco também é cor :) e eu acredito!
Beijinhos
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De the scientist a 07.02.2011 às 22:58

rgds from tânger

(i miss u)

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De Closet a 09.02.2011 às 02:02

Miss U:) come back !
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De Ametista a 08.02.2011 às 00:51

Uma página em branco bela em demasia..

Um beijinho
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De Closet a 09.02.2011 às 02:03

Obrigada Amestista... ando estoirada de brancos!! Melhores dias virão!
Beijinhossss

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