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Fábrica de Histórias

por Closet, em 09.09.10

Matar-te com um Beijo

 

Eram de cetim aveludado, os lençóis que cobriam o teu corpo quente, abandonado, entrelaçado, no meu. Não sabes que os comprei para esta noite, que a planeei, minuciosamente, na minha mente. Tudo para ti. Cada pormenor, cada detalhe, cada jeito. Para que tudo fosse perfeito. E agora que estou aqui, deitada no teu peito, a vaguear o olhar deleitada, enquanto estás a dormir. Gosto de ver-te assim apagado, sereno, com o cabelo despenteado sobre a minha almofada, ainda transpirada. Gosto e te ter atravessado na cama ao meu lado. Como seria bom ter-te sempre aqui. Gostava que me amasses, como te amo a ti.

Até o gato se encosta a ti. Estendido ao comprido, parece rendido, também viciado no calor que emana o teu corpo musculado. E até o seu pelo longo dourado, reluz e ele parece que sorri.

Recordo a noite que amargamente programei. Como que a rebobinar o que sonhei. O vinho tinto frutado que bebemos naqueles copos de pé alto que guardo só para ti. O jantar que preparei com as minhas mãos, a cebola que cortei em lâminas finas, translúcidas, como tu gostas, para um refogado exemplar. Faço tudo para te agradar. Cortei-a então devagar, em movimentos ritmados, violentos e irados. Acabei por não chorar. Julguei que iria fraquejar.

Decorei a mesa com todo o requinte. Os guardanapos vermelhos bordados, a toalha de linho de um branco imaculado. O faqueiro há muito tempo guardado, com as facas afiadas a reluzir. Reflectiam a chama das velas que ardiam nos candelabrosde ferro pesado. Olhei em volta e sorri ao imaginar-te encantado.

Chegaste à hora marcada e eu esperava-te nervosa com aquele vestido que me deste de cetim, vermelho e decotado, só para usar em noites assim. Gostavas que desfilasse devagar, sentavas-te no sofá e ficavas deslumbrado, só de olhar para mim. E eu desfilava lentamente, largando no chão peça por peça, dançando enfeitiçada por ti.

Também o gato correu à porta desenfreado. Também ele sentia saudades tuas, doentias, latejantes com um golpe voraz, como se o sangue não bombeasse as veias quando não estás. Ambos ficamos aninhados no sofá frio, apertando os corpos no vazio, de não te ter cá. Por isso ele foi a correr, lambeu-te a mão e roçou nas tuas pernas enlouquecido. Era parecido comigo.

Afastei-o para te abraçar também, inspirei o aroma do teu perfume, inebriada escondi a dor do ciúme e deixei os teus lábios deslizarem ávidos pelo meu pescoço, percorrendo o meu corpo morto. Gostava que me amasses como te amo a ti.

Agora que estavas a dormir calmo, sobre a minha almofada transpirada. Agora que ainda sentia restos do teu corpo dentro do meu. Tudo em mim estremeceu. O odor do prazer que fustigava os meus sentidos embriagados. Não sabia o que fazer. Os copos de vinho pousados na mesa de cabeceira, e as garrafas vazias enroladas nas roupas, já frias, espalhadas pelo chão. Aquela era a derradeira ocasião. Em que avançava, sem pensar. A dormir não me conseguias enfrentar.

Afasto-me então devagar, com cuidado para não te acordar. Piso descalça o soalho gelado, mas um ranger de tábuas fazem-te mexer. E eu suspendo a respiração, fico paralisada, nua num quarto vestido de solidão. Abres os enormes olhos azuis, aqueles mesmo com que me trais, e afagas o pescoço do gato, que ronrona deliciado, e perguntas-me “onde vais?”.

Atiro-me para o teu corpo cansado e desarmo-te com um beijo extasiado, de travo doce-amargo. Trinco o teu lábio satisfeito. Devoro cada centímetro do teu peito e mato-te ali mesmo, no meu leito, com o guardanapo bordado. Sufoco-te de prazer. Depois deito-me ao teu lado, sabendo que nunca mais estarás acordado, nem o teu coração vai bater.

Gostava que me amasses com um beijo, sentisses o mesmo desejo que eu. 

Outro amanhecer.

 

esrito para a Fábrica de Hstórias sobre o tema "uma música", escolhi "I'd love to kill you" da Katie Melua.

 

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