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Fábrica de Histórias

por Closet, em 19.02.12

 

Faz quase um ano que a Fábrica pediu explicitamente para "não contar uma história de amor" e eu, obediente, não contei, aqui

Hoje pedem-me para contar uma história de amor... então eu vou desvendar o resto da história que ficou por contar!

 

 

 

A história de amor por contar

 

Porque a vida não é uma história de amor, ela preferia não contar.

Guardava para si o abalroar de recordações do acidente que a atropelou. O passado que se fez presente, de repente. O destino que o trouxe nos abraços novamente, para o levar pouco tempo depois.

Numa avalanche de emoções, ele voltou sem avisar, jorrando a loucura dos improváveis, desejos de insatisfações. Como antes, a intensidade dos instantes impossíveis, a tortura das despedidas. Tudo outra vez, em ebulição.

 

Recostava-se para trás no velho cadeirão, puxava a manta de xadrez vermelho e bebia mais um golo do chá, já frio. Sente um arrepio, do tempo que faz lá fora, ou seria dos quilómetros de tempo que os separava agora. O silêncio mórbido que o destino lhe impôs.

Recordava os seus olhos meigos avelã e a sua voz aveludada. Sentia-se aconchegada. As pernas compridas e desengonçadas que nas dela entrelaçava. O sorriso espontâneo, que lhe rasgava o olhar, as músicas que lhe cantava ao ouvido sem parar. Tantas memórias de noites ao relento acordados, onde o céu era tão perto quanto o calor dos corpos abraçados.

 

«Onde estás?» perguntava agora, perdida num labirinto de contradições, angustiada.

Ali, longe de tudo, no tecto do mundo, sentia-se simultaneamente prisioneira e abandonada. Das horas que perpetuavam o espaço, as que antes lhe esculpiram o corpo com lábios quentes e a envolveram num eterno abraço. Respirava com dificuldade. Porque a realidade e a tristeza galopavam ao mesmo passo, lado a lado. E o caminho que escolhera era irreversível, para sempre enevoado.

Tudo era tão pouco, tão efémero. A frustração de perder de novo, a sensação que nunca o teve, antes de o deixar. Era uma triste história de amor, partida em mil pedaços por colar.

 

«Doí-me o peito viver sem ti, sabendo que existes, aí » solta em palavras humedecidas pelo frio do ar.

E sente que ele um dia vai voltar, sem dizer nada, sem avisar. Mesmo sem compreender, sabe que lhe abrirá os braços, cansados, de procurar refúgios para o vazio que só ele pode preencher.

 

 

Escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 18:34


2 comentários

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De Ametista a 20.02.2012 às 02:39

Pois.. eu tinha saudades de vir aqui e ler-te.. porque a tua escrita é inigualável :)
Querida closet, um grande beijinho
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De Closet a 20.02.2012 às 10:55

Obrigada Ametista, confesso que me tenho sentido desinspirada (mas eu sou teimosa e lá vou dedilhando palavras!).
Um beijo doce para ti

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