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Fábrica de Histórias

por Closet, em 18.12.11

 

Um dia ... sigo o rumo dos meus sonhos 

 

Clara arrumou a secretária, como sempre o fazia no final do dia. Os dossiers perfeitamente alinhados no canto e as pastas num pilha organizadas por assunto. Depois dirigiu-se para o gabinete de Francisco e arrumou os papéis espalhados pela secretária, colocou as canetas perdidas no chão e no meio de papeis no recipiente de aço que tinha o seu nome gravado. Guardou a correspondência e deitou no caixote do lixo os envelopes abertos amarotados. Reparou que a moldura da mulher com os três filhos estava tombada e voltou-a para cima. Olhou em volta, juntou as cadeiras à mesa redonda de reuniões e arrumou na gaveta um bloco de notas que lá tinha sido deixado. Correu as persianas e sorriu satisfeita, fechando a porta atrás de si.

Na manhã seguinte Francisco entrou no Gabinete bem cedo, como sempre o fazia. Trazia do café o pequeno-almoço para comer ali mesmo enquanto Clara não chegava para lhe trazer o café. Aproveitava para ler os emails em atraso e ler as notícias nos principais jornais online. Abriu o PC ao mesmo tempo que desembrulhava o folhado que comprara. Tinha 15 emails por ler, não era mau. Sorriu e pensou deixa-los para ler depois enquanto bebesse o café, abrindo de imediato a internet para ler as notícias principais. A crise, a bolsa, os assuntos habituais. Clara não chegava e Francisco olhava impaciente para o relógio. Já passava das 9h00. Decidiu abrir os emails. Eram a maioria emails internos, um de um fornecedor e um de Clara, às 19h30, sem assunto. Pensou que deveria ser um lembrete, ou a justificar porque estaria atrasada, embora não percebesse porque não lhe tinha colocado uma nota na agenda. Abriu e começou a ler:

 

«Olá Francisco

Deixa-me tratar-te por tu a partir de agora, afinal temos meses de diferença.

Em primeiro lugar deixa-me desejar-te Bom dia e dizer-te que a Marlene vai levar-te hoje o café, mas um pouco mais tarde porque ela só entra às 9h30.

Eu hoje não vou. Nem amanhã. Nem depois. Na realidade, não irei mais. Tentei explicar-te vezes sem conta como me sentia, o que sonhava. Um dia falámos inclusive de viagens, lembras-te? E tu disseste que um dia me levavas. Bom, as viagens das férias eram para a família, as viagens de negócios não eram para as assistentes. Eu compreendi sempre. E quando eu te disse que adorava fotografia, que inclusivamente estava a fazer um curso especializado, tu não prestaste atenção. Acredito que gostavas de me ter perto de ti, afinal “ser assistente do chefe de redacção era uma função especial”. Dizias de boca cheia, esquecendo que tinha o curso de jornalismo. Sabias que eu tinha um curso?

Hoje estou a caminho de Nova Iorque. Comprei apenas o bilhete de ída e, como certo, tenho apenas o apartamento da minha amiga de infância em Newark e um estágio na revista People&Travel que consegui através daquele teu amigo que tentou levar-me para a cama depois do jantar em que me fizeste acompanha-lo. Ainda assim foi um bom contacto.

Não sei onde irei viver ou como, mas isso agora não importa. Eu sempre me importei com tão poucas coisas, e tu sempre me encheste de relógios, colares, anéis. Nunca reparaste no meu olhar desolado, pois não? Agora vou fazer o que sempre sonhei, viajar, correr o mundo, vê-lo com os meus olhos, filmar as suas cores pela minha retina e espalha-lo em milhares de fotografias para quem queira viajar comigo também. Vou ser muitas, vou ter tantos comigo. Nunca estarei só.

Podia ter ficado contigo o resto da vida Francisco, eu sei que dez anos era o bastante para me considerares “tua”, e a única coisa que me prendeu foi essa algema inquebrável que era amar-te. De uma forma submissa, incondicional, incompreensível… Deixei de ser eu para ser “a tua assistente”, deixei os meus sonhos, para sonhar contigo. Francisco, consegui abrir a algema com bastante dificuldade, levei meses a força-la e a desistir. Mas um dia ela abriu-se assim de repente quando te ouvi dizer qualquer coisa como “Clara, que seria eu sem ti”. Percebi que as nossas algemas eram falsificadas, o nosso relacionamento unilateral. Eu dava e tu recebias. Acho que irei continuar a amar-te, de uma forma estúpida e incompreensível, numa distância que acalma as desilusões e amplifica o que de melhor vivemos. Agora vou viver para mim, para os meus sonhos sem rumo, sem colares, anéis ou relógios, sem aquilo tudo que me deste e eu vendi para vir para aqui. Nova Iorque é o começo, mas o mundo inquieto lá fora, não tem fim.»

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 23:09


5 comentários

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De T. a 19.12.2011 às 00:42

Perdi-me algures neste texto =)...

Gostei como sempre.

beijos
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De Closet a 19.12.2011 às 00:46

é porque não estás habituado a textos de E-mails  xD ... sorry, um dia... eu explico-me!
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De T. a 19.12.2011 às 01:00

"aviso de cambio de dirección..." Estou perdido para aí no meio...te recuerdas?
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De Ametista a 23.12.2011 às 23:57

Gostei.. muito, como sempre bem como da mensagem que deixaste ficar :)
Aproveito para desejar que o teu Natal te ofereça muitos sorrisos e que no ano que está prestes a entrar consigas realizar sonhos..

Querida Closet, um grande beijinho
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De Closet a 24.12.2011 às 17:11

Obrigada Ametista, um grande beijinho para ti também, com desejos de um Natal doce e quentinho!

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