Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Fábrica de Histórias

por Closet, em 13.11.11

 

 

 

Uma casa em frente à praia

 

O tecto era de vigas de madeira que se cruzavam por cima de mim de forma irregular.

Abri e fechei os olhos por duas vezes, incrédula. Lembrava-me de tropeçar em algo numa esquina a caminho do trabalho. Sim, ía a caminho do trabalho, ía na rua e era de manhã.

 

Voltei a fechar os olhos. Abri novamente e continuava ali. Deitada numa cama larga quase rente ao chão, com um lençol à minha volta. Tinha apenas uma túnica de alças vestida, comprida. Reparei nas paredes coloridas com pinceladas grossas e finas, como um quadro gigante do Kandinsky, faziam-me sentir agradavelmente em casa. Levantei-me curiosa, percorrendo com os olhos aquele espaço térreo, sem divisões e com a luz do sol a entrar de rompante pelas janelas que circundavam a pequena a casa. Ao fundo, um balcão de cozinha com um fogão e lava loiças, uma mesa redonda de jantar e um sofá largo em frente a uma lareira. Uma porta dava para uma casa de banho da largura de uma banheira. Verifiquei com alívio que tinha torneiras onde corria água. Em cima da mesa um PC ligado a uma ficha. Sorri ao perceber que afinal não estava no fim do mundo, tinha água e electricidade, já era alguma coisa com que podia contar.

 

Quando abri a porta da rua emudeci maravilhada com a abundante vegetação que envolvia a casa caiada de cores garridas. Ao fundo espreguiçava-se uma praia de areia branca engolida por um mar, de tal forma transparente, que parecia irreal. Em frente à casa, entre duas árvores, uma cama de rede baloiçava com a brisa da manhã e uma bicicleta antiga convidava a um passeio matinal.

 

Onde estaria? Como fui ali parar? Perguntava-me enquanto caminhava descalça em direcção ao mar. Adorava aquela sensação da areia a entranhar-se nos meus pés, como se entre mim e a natureza não houvesse nada que nos pudesse separar. Senti-la, como parte de mim e eu dela, daquela paisagem inebriante que se estendia pela minha frente e onde eu queria entrar.

 

Em cima de um rochedo, que ladeava a praia, estava um homem moreno que não reconheci. Tinha talvez um 1,80 e vestia uns calções de pano e uma t-shirt russa. Não era nem gordo nem magro, corpo atlético e braços peludos. Fiquei a observar os movimentos e a sua paz enquanto pescava. De repente viu-me e acenou-me como se me conhecesse perfeitamente. Com um enorme sorriso gritou que tinha pescado um peixe enorme para o almoço. Confusa, sorri também arrepiada com a estranha sensação de o reconhecer de alguma forma, de algum lado, mas não sabia onde ou como.

 

Voltei para casa e sentei-me na mesa com o PC. Estava ligado e vi aberto um documento já com 70 páginas com o título no cabeçalho “Uma gaivota sem mar?” e o meu nome no rodapé de todas as páginas. Interroguei-me se seria o nome de um livro, se eu o estaria a escrever. Mais uma vez nao sabia responder. Ao lado encontrei revistas com páginas marcadas. Abri uma, depois outra e mais outra. “Uma vida sem rumo”, “A descoberta da identidade” e “Decisões imperfeitas” eram artigos assinados com o meu nome, mas não me lembrava de os ter escrito, embora os temas me soassem familiares.

 

Tremi quando o homem moreno entrou em casa, descalço, com a t-shirt molhada colada ao tronco. Colocou o peixe na bancada da cozinha e veio para junto de mim abraçando-me por trás. Cheirava a peixe e a maresia. Os seus braços quentes envolviam-me, enquanto os seus lábios perdiam-se no meu pescoço, provocando-me uma tontura em deixei de raciocinar.

 

Onde estava e o que fazia, já não me interessava para nada. Naquele momento, em que o corpo era transportado em silêncio para o chão de madeira e as roupas arrancadas sem hesitar, fechei os olhos e deixei-me embalar pelo rebentar das ondas do mar. Aquele instante de fantasia ou realidade, aquele universo à parte, era tudo o que queria, tudo o que sonhava. Até o homem, que agora amava no chão sem o estranhar, completava o mundo que ali me sorria, num paraíso de liberdade.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:15


4 comentários

Imagem de perfil

De Ametista a 14.11.2011 às 02:30

Gostei, gostei, gostei.. muito.
Closet, as tuas histórias são sempre invulgares :)

Beijokas
Imagem de perfil

De Closet a 15.11.2011 às 20:59

Obrigada Amestista! 
Acho que eu gosto de coisas invulgares :)
Um beijinho
Sem imagem de perfil

De Natacha a 15.11.2011 às 23:46

Era  também uma possibilidade bem mais soft que a minha :) Era capaz de topar também, um amor e uma cabana não perdendo o cordão umbilical que nos liga ao resto do mundo e que, nos faz estar aqui :)


Beijo, muito bom, as always ;)
Imagem de perfil

De Closet a 17.11.2011 às 00:14

era uma vida... fantástica, mesmo que tivesse de criar galinhas e porcos, pescar... ok, tornar-me vegetariana :D 
Gosto de coisas simples e nada como acordar como uma amnésia naquele lugar!!
Beijosss

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Novembro 2011

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930