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Fábrica de Histórias

por Closet, em 22.10.11

 

 Clemência e a Imperatriz

 

Era enquanto passeavam no jardim que Maria Teresa lhe confidenciava as suas aventuras secretas. Clemência sentava-se a seu lado num banco rodeado de sebes altas e absorvia cada palavra, memorizava cada nome, cada lugar, cada gesto da imperatriz. Maria Teresa descrevia-lhe com pormenor os corpos musculados dos generais com quem se encontrava secretamente, as suas conversas e as mentiras que lhes contava.

- Alguns não prestam para nada! – Maria Teresa ria-se descontrolada – Uns corpos fortes e robustos mas depois parecem uns tolos, coitados, sem saber por onde começar e mal começam, não aguentam, está tudo terminado – Riam-se as duas cúmplices.

Clemência apaixonou-se pela primeira vez aos 16 anos. Percebeu-o quando numa tarde quente de Verão foi levada pelos jardins do Palácio até à imperatriz Maria Teresa para ser a sua nova Aia. A imperatriz encontrava-se num local reservado do jardim, deitada sobre uma manta bordada de linho e com apenas uma túnica branca que lhe contornava o corpo. Uma jovem desenhava-a a carvão. As suas formas perfeitas, os lábios carnudos, os cabelos longos que lhe caiam em canudos pelo peito exuberante. Nunca Clemência tinha visto tamanha beleza.

- Que tal? – Perguntou Maria Teresa fazendo-lhe um gesto para se aproximar - Gostas?

Clemência, nervosa, acenou que sim, murmurando “muito, senhora”.

- Então este fica para ti, como presente de recém-chegada – sorriu, percorrendo Clemência com os olhos, levando-a a corar.

Depois dessa tarde, muitas outras surgiram, em que as duas passeavam pelo jardim, numa cumplicidade desinibida. Partilhavam histórias, medos e segredos. Clemência vibrava com as confidências da imperatriz, de tal forma considerava ser ela o seu verdadeiro amor.

Quando completou 18 anos, um general, amigo do imperador, quis casar com Clemência. Mesmo contra a vontade de Maria Teresa e da própria Clemência, casaram e foram viver para uma província que ficava a um dia de distância.

Certa noite Clemência tinha combinado com Duarte, um criado da corte que era também o mensageiro de Maria Teresa, encontrar-se nas cavalariças, junto à adega, para lhe entregar cartas da imperatriz. Providenciara aquele chá especial ao seu marido que lhe garantia um sono pesado toda a noite e vestiu uma capa por cima da combinação de dormir. Saiu, atravessando descalça o pátio empedrado. Duarte ainda não se encontrava, por isso entrou na adega para se abrigar da humidade da noite. Com a ajuda de um archote iluminou a adega abandonada, repleta de grandes pipas de madeira e lagares de pedra encardida. Também não havia sinal do Duarte por lá. Voltou para trás à sua procura quando percebeu que a porta se tinha fechado. Rodou a maçaneta redonda de ferro mas ela não cedia. Fechada naquele lugar frio e sem saída possível, Clemência pensava aterrorizada que explicações daria ao seu marido na manhã seguinte. Isto se a encontrassem na manhã seguinte. Poderia ficar ali a apodrecer para o resto da sua vida. Mas disso não tinha receio, Clemência apenas lamentava as cartas que não tinha lido.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

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publicado às 17:41


2 comentários

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De Autores a 25.10.2011 às 13:05

IMPORTANTE:
Nanowrimo FH Team, aqui!
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De Closet a 26.10.2011 às 00:48

Lá estaremos!!
Beijos

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