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Fábrica de Histórias

por Closet, em 17.10.11

Aqui vai um parêntiesis antes... 

[esta é uma das minhas histórias preferidas, confesso, dormir durante 100 anos é algo assim de... brutal, e mais, sem uma ruga!! depois acordar com um principe encantado e viver feliz para sempre?? ... what else???]

 

 

A Bela Adormecida

 

Era uma vez uma menina de  longos cabelos dourados e enormes olhos verdes. Todos lhe chamavam Bela pela beleza natural que emanava, ela era uma criança graciosa e encantadora. Mas Bela tinha também outras virtudes, era inteligente e bondosa, de tal forma simples e generosa que todas as crianças queriam ser amigos dela.

Na festa dos seus 8 anos Bela tropeçou numas escadas íngremes perto de sua casa. Levada de imediato para o hospital, Bela foi submetida a vários exames médicos que lhe detectaram um derrame cerebral estranho, provavelmente derivado da queda. 

Os seus pais, donos de uma fortuna imensa, levaram a filha aos melhores médicos do mundo para averiguarem a gravidade do problema. Bela foi observada no estrangeiro por uma conceituada médica neurologista que aconselhou opera-la de imediato, sob pena de não resistir mais do que 10 anos de vida. Contudo a operação era arriscada e os pais, assustados, regressaram ao seu país, indecisos. A médica que acompanhara Bela desde o inicio da queda, que não tinha qualquer diploma internacional nem experiência em casos semelhantes, não concordava com a intervenção cirúrgica, acreditando que Bela poderia viver uma vida longa e saudável. 

Os pais, apreensivos com a saúde da sua menina, mas também com receio de perde-la, decidiram não opera-la mas mante-la resguardada do mundo exterior. Bela deixou de frequentar a escola e passou a ter um professor em casa, aprendeu a tocar piano e harpa e cresceu na quietude da sua casa sem expor-se aos perigos da rua e da vida lá fora.

Ao completar 18 anos, Bela pediu aos pais, como presente, sair de casa no dia seguinte para visitar os seus amigos. Perante os olhos sedentos da filha, os pais não a contrariaram e aceitaram o seu pedido.

Na manhã seguinte, quando a mãe bateu à porta do seu quarto para a acordar, Bela não reagiu. A mãe desistiu de chama-la e cercou-se dela, abanando-a de seguida. Primeiro devagar, depois mais bruscamente. Bela não reagia, mantinha os seus olhos presos num sono profundo, o corpo inerte, movimentado pelas mãos da mãe como uma marionete que a puxava para cima. O pai correu ao quarto ao ouvir os gritos de desespero da sua mulher, pegando Bela ao colo aflito. A filha respirava, o coração batia, sentia-lhe a pulsação, mas os olhos e a boca mantinham-se fechados para o mundo. Isolada como uma lha inacessível.

Levada para o Hospital, para a unidade de Cuidados Intensivos, foi-lhe diagnosticado um coma profundo de origem desconhecida. Bela foi transferida para um Hospital de especialidade neurológica e durante 6 meses foram submetida a diversos estudos e tratamentos, vieram médicos do estrangeiro para observa-la, mas nenhum conseguia encontrar a origem do problema e muito menos a cura.

Durante todos estes meses, Ricardo, um auxiliar médico do turno nocturno, foi acompanhando a triste história de Bela, ao mesmo tempo que era seduzido dia após dia pelo seu encanto mágico. Pelo rosto imóvel pálido que era, ao mesmo tempo, perfeito. Os lábios bem delineados, o contorno dos olhos rasgados e a forma redonda do nariz, Bela parecia ter sido desenhada por um pintor. Assim, todas as noites, durante o intervalo do seu turno, Ricardo sentava-se ao lado da cama de Bela, pegava-lhe na mão e acariciava-lhe o braço frio que enlaçava no seu. Na maioria das vezes ficava apenas ali sentado a seu lado a olha-la enquanto conversava em monólogos no escuro, outras vezes recitava-lhe poesia. Ricardo acreditava que Bela o escutava, de alguma forma, e sentia uma paz imensa na sua companhia. 

Certa noite de lua cheia, o rosto de Bela foi iluminado pela janela com tal intensidade que Ricardo ficou paralisado, fascinado com a extraordinária beleza que dela luzia. Como se o mundo inteiro parasse naquele instante e os dois vivessem um momento impossível. Sem pensar, debruçou-se sobre Bela e beijou-a. Primeiro na testa, percorreu-lhe os olhos, depois os lábios macios. Num acto inconsciente, abriu-lhe os botões da camisa e desceu pelo pescoço até ao peito. Beijou demoradamente o seu coração, que batia agora acelerado. Demasiado do rápido, pensou, quando as máquinas dispararam um sinal sonoro, assustando Ricardo que endireitou-se imediatamente. Foi nessa altura que viu à sua frente uns olhos enormes verdes a olhar para ele, perdendo-se neles como num mar das Caraíbas. Bela sorria e, na sua voz suave e doce, disse «podes repetir o último poema?».

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

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publicado às 00:34


6 comentários

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De Anónimo a 19.10.2011 às 14:36

rgds from chihuahua
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De the scientist a 19.10.2011 às 14:39

rgds from chihuahua
(sleeping soneca)
:)
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De Closet a 19.10.2011 às 23:32

darling U :) crazy scientist!!
beijos
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De Ametista a 19.10.2011 às 18:58

Closet, gostei muito da tua versão da história.. invulgarmente terna..

Um grande beijinho :)
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De Closet a 19.10.2011 às 23:34

Obrigada Ametista, a foto do cérebro paralisou-me o coração :) 
Vou agora ler a tua, mas não conheço o original, shame on me... :(
Beijinhos
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De Ametista a 20.10.2011 às 13:05

Shame? Nã nã.. ninguém é obrigado a ler todos os livros.. são tão poucos os que já li, tantos que tenho para ler..
Mas que vale a pena ler o 'África dos meus sonhos', é uma verdade.. bem como o filme. No meu ponto de vista, ambos fabulosos :)
Colei-me um pouco ao original, mas inverti os destinos.. por isso mesmo, considerei uma certa ousadia da minha parte escrever a história assim, não fosse o livro uma autobiografia..

Beijoka grande :)

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