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Fábrica de Histórias

por Closet, em 18.09.11

 

O caso do Bule desaparecido

 

Depois de um fim-de-semana solarengo no Algarve, o casal Salavedra regressa à sua luxuosa moradia numa zona calma de Cascais. Estacionam o seu Mercedes classe S e dirigem-se à porta de entrada. Vanda abre a porta enquanto o Francisco fica a descarregar o carro. Um grito faz com que deixe cair a mala que tem na mão e correr para dentro de casa.

- Vanda, estás bem? – Grita procurando-a pelo corredor.

- Aqui Francisco, na sala!

Dr. Francisco, um conceituado dentista de 58 anos acorreu à sua mulher. A sala encontrava-se toda revirada: almofadas e livros espalhados pelo chão, jarras deitadas nas mesas, candeeiros com os abajours retirados ao lado, molduras fora do lugar, portas do louceiro abertas, os copos remexidos, quadros tortos na parede, até a pequena garrafeira, comprada num antiquário, fora arrastada para o outro canto da sala.

- Fomos assaltados, Francisco! – Exclamou Vanda horrorizada, endireitando uma moldura com a fotografia do casamento do seu filho.

Dr. Francisco, um homem pragmático, tentou acalma-la, convencendo-a a arrumarem as coisas nos lugares para verem o que realmente faltava.

- Vanda, é muito estranho. Não levaram nada de valor, o LCD, os quadros que valem bastante dinheiro… Parece apenas que passou aqui um tornado…

Aos poucos a sala voltou a ficar arrumada e as coisas todas no seu lugar. Todas excepto um bule de estanho que trouxeram de uma viagem à Tunísia.

- Não encontro o bule – Queixou-se Vanda nervosa – Não o vejo em lado nenhum…

O bule não se encontrava de facto em lado nenhum da sala.

- Tens a certeza que estava aqui? – Perguntou Francisco intrigado.

- Sim, estava naquele tabuleiro junto com os copos iguais, vês? Ali em cima do aparador.

Francisco lembrava-se agora do bule, um conjunto com tabuleiro e 4 copos que compraram em Tunes por uma pechincha, mas que a sua mulher adorava.

- Que estranho… - coçava a cabeça com pouco cabelo no alto, fazendo uma espécie de auréola – Mas para quê que levariam aquele bule? Não vale nada.

Vanda fulminava-o agora com os olhos, evidentemente sofrendo aquela perda.

- Valia sim! Tinha valor para mim, eu quero reaver aquele bule.

- Querida, mandamos vir outro de lá, de certeza encontramos um igualzinho.

- Quero aquele, quero o meu! – Interrompeu-o Vanda com a sua voz irritada – Francisco, tenho de saber porque me roubaram o meu bule da Tunísia…

- Está bem, está bem… mas o que queres fazer? Não vou telefonar para a polícia a dizer que me assaltaram um bule sem qualquer valor mas deixaram um quadro da Paula Rêgo… Vanda, que queres que faça, deixa lá o bule.

Mas Vanda estava convicta a reaver o seu objecto e não hesitou a ligar para a polícia a solicitar um contacto de um investigador particular.

Nessa mesma noite o Inspector Vargas dirigiu-se a casa dos Salavedra em Cascais. Era um sujeito de meia idade, baixo e franzino, com um bigode que lhe tapava o lábio superior.

- Boa noite – cumprimentou-os à entrada – Então parece que foram alvo de um roubo premeditado – balbuciou coçando a ponta do bigode.

- Bem, não sei se foi assim bem premeditado…

- Ora, ora, acha que remexeram-lhe a sala toda só para lhe levar um bule sem valor? – Riu-se ironicamente – Não seja ingénuo, quem levou o bule quis simular um assalto, mas já sabia para o que vinha! Foi burro, claro, podia ter levado mais qualquer coisa… mas apenas quis AQUELE bule – Olhava agora friamente nos olhos de D. Vanda e do Dr. Francisco, carregando na palavra “aquele” de uma forma assustadora. E continuou.

- Quem mais tem a chave da vossa casa? – Perguntou o Inspector Vargas.

- A nossa empregada D. Irene e o nosso filho.

- E o jardineiro, querida, não te esqueças que lhe demos uma cópia o ano passado.

- Ah sim, o jardineiro mas ele só vem cá às quartas e sextas-feiras e raramente entra.

– Hum…. E os vizinhos? Alguma vizinha mais chegada?

- Não, apenas a D. Irene que também faz umas horas na nossa vizinha do lado.

- Preciso de entrevistar a D. Irene e o Jardineiro – proferiu com altivez.

- Para quê? Pensa que foi algum deles? – Vanda ficava agora pálida.

D. Irene e João Ricardo, o Jardineiro, chegaram depois de um telefonema, já eram 21h30. Entrou primeiro a D. Irene dentro do escritório, estando com o Inspector Vargas a porta fechada cerca de 20 minutos. Depois foi a vez do jardineiro, um homem musculado de tez bronzeada pelo sol. Após mais 20 minutos saiu e ambos foram dispensados.

O Inspector Vargas dirigiu-se ao casal dizendo-lhe que já tinha desvendado o caso. Perguntou-lhes de seguida se queriam ouvir em conjunto ou separados.

- Juntos! – Entreolharam-se.

- Pois bem. O Bule não foi roubado, mas guardado.

- O quê? – Exclamaram ambos.

- Sim, é a D. Irene que o tem em sua casa.

- Como diz? A nossa empregada virou-nos a casa do avesso e roubo-nos os bule? – Vanda estava agora encarnada de raiva.

- Não, ela não vos revirou a casa. Quem revirou foi o vosso jardineiro …

Mais uma vez o casal Salavedra abria e fechava a boca, agora sem dizer nada.

- O vosso jardineiro confessou-me que utilizava o vosso anexo de arrumações para fazer, como hei-de dizer? Umas filmagens. Ao que parece a D. Vanda estava ao corrente desse pormenor, não era?

Vanda corava gaguejando apenas:

- Ele pediu-me apenas para utilizar o armazém exterior uma ou outra vez…

- Bom, ao que parece as filmagens eram de natureza pouco própria, entendem-me?

Dr. Francisco agora bufava confuso, ziguezagueando os olhos entre o Inspector e a sua mulher.

- Desculpe lá, mas não estou a perceber nada. Vanda, importas-te de me explicar o que se passa…

- Querido, ele pediu-me se podia usar o armazém uma ou outra vez, não sei o que ele fazia lá… - Vanda retorquiu nervosa – ele fechava-se lá dentro depois de tratar do jardim.

- Pois então eu digo-lhe o que ele fazia lá dentro. Fazia filmagens, a ele próprio, entende?

- Aiiii – gritava Vanda cobrindo os olhos com as mãos.

- E mais, a D. Irene um dia descobriu que a senhora ía para lá depois dele sair e ficava lá sozinha por um bom bocado, não era D. Vanda?

Vanda não conseguia dizer nada, abanando a cabeça consternada. O Inspector continuou olhando agora para o Dr. Francisco com ar sério.

- A sua mulher escondia uma chave do armazém dentro desse bule. A D. Irene descobriu-a na sexta-feira a colocar lá dentro. Então veio cá este fim-de-semana para ver o que estava dentro do armazém e foi então que encontrou tapado com um pano, a um canto, um tripé com uma câmara, um leitor DVD portátil e CDs com filmagens indecentes. Deitou o material todo para o lixo e levou consigo o bule com a chave que tenho agora em minha posse.

- O quê? Mas Vanda como pudeste? – Francisco parecia agora irritado.

Vanda interrompeu-o – Então se é assim porque ficou afinal a casa virada ao contrário?

- Aqui é que está o busílis meus caros… - o Inspector esfregava as mãos radiante com a sua inteligência – é que o Dr. Francisco já tinha descoberto esta história há algum tempo... Pois é! Ele já a tinha visto uma vez a sair do armazém ao final do dia e sabia que a Vanda á espreitar os seus filmes. Logo neste fim-de-semana, por coincidência, ameaçou por telefone o jardineiro, dizendo que tinha escondido na sua sala cópias dos filmes que guardava no armazém e que o denunciava, não foi Dr. Francisco?

- Ohhh… Tu fizeste isso? – Gemia Vanda.

- Foi o estupor que veio aqui remexer a nossa casa! – Francisco gritou exasperado.

O Inspector confirmou, salientando que ele só queria as cópias. Ficou desesperado quando deparou-se com todo o seu material roubado, aquilo era um negócio clandestino que ele comercializava no mercado negro da internet. Mas já não havia nada a fazer e ele já nem tencionava voltar lá a casa.

- Agora meus caros, deixo-vos a resolver as vossas vidas. Na minha modesta opinião, penso que aqui tem existido roubos diversos, de verdades, de ambas as partes.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

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publicado às 23:03



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