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Fábrica de Histórias

por Closet, em 11.09.11

 

«Apeteces-me»

 

Tropecei em ti no início do Verão. Conhecia-te apenas de vista, por isso tentei ser simpática, pareci tímida, provavelmente atrapalhada, não sei bem.

 

Duas semanas mais tarde foste contra em mim. Assim de repente, num virar de esquina. Embatemos de frente. Talvez por estar um dia quente, lembro-me que senti gotas escorrerem-me entre o peito arrepiado. Transpirámos sorrisos fascinados numa espécie de diálogo. Talvez por estar um dia quente, as palavras, incandescentes, incendiaram-me os sentidos.

 

Depois, não sei como foi. Se foste tu ou fui eu. Encontrámo-nos novamente. Sei que foi um encontro diferente do habitual. (Terão de ser todos os encontros iguais? E o que é um encontro normal? Algo marcado num café ou restaurante, conversas coloquiais sobre o tempo e os problemas do país e, no fim, uma despedida forçada com promessas que não pretendemos cumprir?). Não! Connosco foi tudo anormal. De trás para frente, sem ordem definida. Talvez por isso senti-me bem contigo, como se andasse ao contrário, virada de costas para a vida.

 

Durante o Verão acompanhaste-me sempre na insatisfação. Por onde andei, de dia e noite, consciente ou perdida. Vagueaste comigo pelas estradas onde conduzia, pelo paredão da praia para onde fugia ao fim da tarde, escondeste-te comigo no escuro e abraçados partilhámos silêncios, desejos estrangulados. Inventámos os corpos numa língua mágica, fizemos amor entre a calma e a euforia. E por todo o lado onde os meus pés me levavam, foste deixando marcas. Rastos de vida, recortada em peças desordenadas e soltas, seduziam.

Na praia, pela manhã, decifrava o desenho na areia. Deixavas sempre um diferente a cada dia, numa espécie de código. Percorria as tuas marcas que diziam tudo o que eu secretamente queria. Eu queria-te mais e mais, sofregamente todos os dias.

 

Eras os raios de sol que me beijava ardente a pele, os grãos de areia que se entranhavam e agarravam os meus pés soltos, o sal do mar que envolvia o meu corpo doce. Salpicavas-me impunemente à beira-mar com palavras despidas: «Apeteces-me», dizias. Como se eu fosse um novo sabor de gelado, o céu azul num dia carregado de chuva. Eu entrava quente pela água gelada, destemida. O choque térmico violento de ser puxada para ti. Fingia que não tremia. Mas tremia sempre, sempre que a tua voz soprava rente aos meus ouvidos. A tua respiração fogosa era a brisa aconchegante, sussurravas as coisas mais descabidas. Tremia e ria, imaginando as mais delirantes fantasias desenhadas em viagens sem destino ou data de partida.

 

O Verão aqueceu-nos, alimentou-nos a alma faminta, nem sempre tranquila. Por vezes arrefeceu-a em tempestades que levantei abruptamente sobre o teu corpo desprevenido. Como uma criança mimada, amuava, torcia a boca, fazia beicinho. Tu não vergavas por nada. Resignada em saudade, eu voltava para o teu abrigo. Porque verdadeiramente amava estar contigo. Encaixava-me no teu colo e pedia-te para continuares a desenhar na areia as histórias mais loucas, tocares ritmos exóticos para eu dançar, devorares no escuro os meus sentidos. Era sem fronteiras de pele que saboreava a saliva que escorria dos teus lábios, suados de palavras apetecíveis.

 

Agora Setembro chegou. E com ele as marés vivas aproximam-se, agrestes, espumosas. Fico sentada na praia a ver o mar triste, enquanto o vento sacode o meu corpo, frio. Encontro por todo o lado espalhadas as marcas que foste deixando na areia. Sorrio nostalgia. Percorro com os olhos as palavras desenhadas em formas e sensações. Vejo que algumas marcas estão agora inscritas em mim, queimadas a uma letra invisível. Tu não estás aqui comigo. É esta a ironia do destino.

Num misto de ansiedade e medo, pergunto-me, se as marés vivas de Setembro levarão todas as marcas de ti.

O Verão que nos incendiou está a acabar. Como será o nosso Outono?

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

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publicado às 15:44


6 comentários

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De viajanteintemporal a 14.09.2011 às 01:29

Lindo!
Gostei muito!
Já começa a ser difícil comentar os  teus posts, pois acabo sempre por dizer a mesma coisa.
Mas sabes que gosto da tua escrita.
Beijinhos
PS:Os encontros nunca são habituais:)

 
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De Closet a 14.09.2011 às 22:20

Obrigada, talvez esteja algo confuso...
E sim, há encontros estranhos, tipo às cegas, em locais variados, até à porta de livrarias, por exemplo!! Bjinhos
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De Ivete a 17.09.2011 às 20:56

Ai,ai... esta sem dúvida foi a descrição de um tórrido amor de verão. Imaginário ou não, flamejou! :))
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De Closet a 19.09.2011 às 15:19

A imaginação flmeja sempre, então quando chega o Verão :)
Bjinhos Ivete!
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De Ametista a 18.09.2011 às 17:49

Linda, como sempre..
As tuas histórias são, de facto, apetecíveis... devoram-se com a alma :)
Tenho andado ausente, não fosse a falta de tempo. Deve ser geral, não é?

Um grande beijinho, Closet 
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De Closet a 19.09.2011 às 15:21

Obrigada Ametista, esta imagem "apeteceu-me" :)
Sim, por vezes precisamos todos de estar um pouco ausentes, ou com falta de tempo!
Um beijinho grande!

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