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Fábrica de Histórias

por Closet, em 12.08.11

   Tema para Agosto (I): 

escolhe uma das personagens secundárias e escreve uma história que possa ser integrada no conto original.

 

Personagem: Herman, irmão de Janice.

_________

 

Herman atendeu o telefone com um grunhido de voz ensonada, coçando o cabelo desgrenhado.

- Sou eu. Tenho uma novidade para te dar.

- Janice? Sabes que horas são? – Praguejou.

 

Ela sabia perfeitamente, mas isso não lhe interessava para nada e continuou a falar com uma felicidade capaz de ser contagiada pela linha telefónica.

- Herman, é mesmo importante! Vou-me casar!

 

Ria-se daquela forma acriançada que enervava o irmão, já sentado estupefacto. Edna resmungava da cama qualquer coisa que ele não prestou atenção.

 

- Casar? Mas tu já casaste? – Ripostou.

- Outra vez, com outra pessoa! Com “a” pessoa certa, percebes?

 

Ria-se nervosa enfurecendo ainda mais o irmão, incapaz de compreender uma palavra do que ela dizia. De repente ficou apreensivo.

- Janice, estás grávida?

- Oh não!

- Então, onde o conheceste?

- Aqui no hotel

- Nessa espelunca?

- Herman, eu estou muito feliz, entendes? Mesmo feliz, finalmente sinto-me óptima, como tu dizias. Mano, este homem fez-me renascer e encheu a minha vida de sentido. Ama-me como nunca ninguém me amou, acreditas nisto?

 

Herman não sabia o que lhe dizer aquela hora da madrugada. Era evidente que a voz dela era de felicidade, mas também de uma certa loucura. De repente, passou-lhe pela cabeça se a irmã estaria sob efeitos de álcool ou algumas drogas novas que agora traficavam.

- Janice, tu por acaso estás a sentir-te bem? Diz-me, como se chamava o nosso pai?

- Pára com isso Herman! Quis que fosses a primeira pessoa a saber. Desculpa se te acordei, desculpa – a sua voz começou a abrandar o ritmo inicial de euforia – depois falamos. Posso passar aí amanhã?

- Humm, claro – arfou abanando a cabeça em desaprovação. Não podia acreditar que ela fosse mesmo levar em diante a ideia de casar novamente.

- Ah e mano…

- Diz.

- Chama-se Charles.

- O papá não se chamava assim Janice – bradou assustado.

- Não Herman, o meu noivo. Chama-se Charles e … Bem, é cego. Amanhã falamos melhor. Dorme bem! – Apressou-se a desligar deixando Herman estarrecido.

 

A irmã emanava felicidade. Uma felicidade que nem ele próprio sabia se conhecia. Tentou compara-la à primeira vez que se sentou ao volante do seu novo Cadillac. Não! Era uma felicidade maior ainda, mas como? – Perguntava-se enquanto voltava para a cama arrastando pesadamente os pés, no soalho de madeira envernizada. Encontrou Edna já sentada, o seu rosto rosado tinha agora o sobrolho levantado.

- Quem era? – Protestou mal humorada.

- A Janice.

 

Tinha uma minúscula esperança que Edna não lhe fizesse perguntas. Precisava de acordar cedo, apanhar o avião para Chicago para fechar um negócio importante. Mas as suas suspeitas confirmaram-se.

- Mas o que é que ela queria de ti a esta hora? Dinheiro?

- Edna! – refilou zangado com a frieza da mulher – ela nunca me pediu dinheiro. E ligou para me contar uma coisa, foi só isso.

- Uma coisa às 3 da manhã? – Fazia agora um beicinho amuado.

- Querida, vamos dormir, ela vem cá amanhã e conta-te tudo, está bem?

 

Esperava que isto a contentasse, mas Edna tinha uma curiosidade voraz.

- Que novidade? Conta-me? – Suplicava agora, pousando o braço pesado por cima do seu peito e abanando-lhe os ombros.

 

Herman suspirava. Como se não bastasse a irmã tê-lo acordado com aquela ideia idiota que não devia passar disso mesmo, agora a mulher não o deixava dormir. Será que não percebiam que ele ia trabalhar no dia seguinte? Sim porque tudo o que ele tinha era fruto do seu empenho e esforço, e alguma habilidade para o negócio também. Resolveu então soltar a bomba para ela o deixar dormir.

 

- Olha, diz que se vai casar outra vez, pronto.

Edna olhava-o estupefacta com os seus minúsculos olhos, pincelados numa cara redonda.

- O quê? Com quem? É rico?

- Sei lá. Só sei que está muito feliz – Virou-se para o lado.

- Se calhar é outro falhado, armado em intelectual que não tem onde cair morto. Ela que não pense que vão os dois viver à nossa custa.

 

E continuou a pigarrear mas Herman já não escutava. De repente, as únicas palavras que lhe ecoam na cabeça com algum conforto eram «estou muito feliz, entendes? Mesmo feliz, finalmente sinto-me óptima». E mesmo que ele nunca a viesse a entender, a alegria da sua irmã enchia-lhe o coração endurecido pelos bens materiais de que se tinha tornado escravo. Um travo de inveja percorreu-lhe o corpo roliço, questionando-se se algum dia viveu tamanha euforia. Depois lembrou-se daquela vez em que a Rachel, a sua paixão de adolescente, aceitou dançar com ele num baile da escola. O nervosismo, a emoção, as palpitações, lembrava-se agora com uma penosa nostalgia. E mesmo com Edna a praguejar ao lado, adormeceu sem notar com um sorriso no rosto.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 00:28


3 comentários

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De Ivete a 31.08.2011 às 21:12


Olá...
Vi que o nosso Herman gritou aí no teu ouvido também! Escolhemos o mesmo estranho homem como nosso personagem...
Ao que vi, nosso entendimento em relação a ele não foi muito diferente! :))
Um grande abraço para ti
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De Closet a 01.09.2011 às 00:11

Pois como já disse no eu blog, quisemos torna-lo uma pessoa bonita!
Bjs
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De Ivete a 02.09.2011 às 17:33


E mostramos que ainda acreditamos no amor...:))

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