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Delete

por Closet, em 07.06.11

 

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As palavras fugiam-lhe entre a incompreensão, a raiva e a mágoa.

Tinha tanto, violento, para lhe dizer, aprisionado dentro de um corpo, zombie, de desilusão.

Tantas perguntas que, de repente, já não tinham qualquer interesse ou justificação. Desfaziam-se, entre lágrimas perdidas, numa folha de papel branco, tão vazia como o que ela sentia naquele momento.

Nada. A estranha sensação que nunca mais o iria ver. Porque nada do que ele pudesse dizer-lhe a convencia a perdoa-lo, a acreditar nele outra vez.

Voltou a experimentar o sabor amargo do abandono. "será que sabes o que é ser abandonado por a pessoa que sempre se quis?" e as palavras gretavam-lhe a pele, por isso ela apagava-as rapidamente. Porque tudo aquilo a feria, esfaqueava brutalmente. 

Como se o destino se risse dela, sádico, ao vê-la sofrer. O destino que a colocara à prova no passado e a viu tombar com a ingenuidade própria de uma paixão pura, também a única capaz de se ter. Aquela que quebra o coração para sempre, depois dela passa-se a tratar o amor por tu, sem medo ou respeito. Sem devoção.

Esse mesmo destino, maquiavélico, que o devolveu tanto tempo depois aos seus braços só para que pudesse relembrar tudo o que há de violento no amor. O chão tremer enquanto o cérebro bloqueia, a respiração ofegante de quem corre sem sair do lugar, a cabeça a girar numa tontura constante. Para que pudesse sentir de novo o cheiro, o tacto e o sabor do desejo a queimar desmesurado e impotente. O corpo que reconhecia como seu, a cada raspar do olhar, dos lábios e da língua. A pele, as mãos, a voz e os beijos. Tudo. Tudo o que ela sempre quis resumia-se a alguém que a magoou de silêncio e mentiras, alguém que a abandonou "pela ultima vez" repetia.

Queria dizer-lhe exactamente isto, que nunca o esqueceu, nem acredita que algum dia o irá esquecer. Mas ainda assim, estilhaçada, riscou do destino a vontade de o voltar a ver.

Como as palavras eram ocas e dolorosas, apagou tudo, mais uma vez.

 

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publicado às 22:51



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