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Inspiration

por Closet, em 17.05.11

Um dia escrevo sobre ti, outra vez. Um diz escrevo. Escrevo-te. Direi tudo o que tenho entalado, sufocado, por dizer. As palavras enterradas dentro de nós habitam-nos como mortos-vivos, assombram-nos como fantasmas abandonados. Perseguem-nos, sombras sanguinárias no silêncio da mágoa e da culpa. Um dia escrevo. Se as palavras, moribundas, vierem à tona, emergirem de rompante outra vez. 

 

 

Estou a tentar escrever um conto, estou a tentar não me contradizer e baralhar enquanto conto o conto... bom, estou a tentar (quem me conhece pessoalmente sabe que é quase quase impossível..well, I'll try)... e estou a trabalhar arduamente! Rescrevo, rescrevo, rescrevo e estou sempre insatisfeita... (não, não estou deprimida, sei que é mesmo assim... o prazer do processo de escrita é maior do que o resultado em si), e entro nas personagens de tal forma que por vezes tenho de abanar a cabeça para elas sairem novamente dentro de mim... mas confesso, sabe-me bem experienciar outros corpos e viver outras vidas, ter outra voz, outro rosto. Mudar, ainda que em ficção, faz-nos resnacer um pouco.

 

Fica aqui um pouco do meu conto que avançarei (espero e assim o dizem) no Retiro de Escrita que vou fazer no final desta semana. 3 diazinhos SÓ a escrever, é dose!

 

Para quem gosta de histórias, retalhado do meu..."dizem que vai ser um conto"! O tema? Acho que é sobre o "segredo".

______

 

Ficaram os dois sozinhos, invadidos por um silêncio desconfortável. Sem trocar uma palavra foram caminhando devagar pelo passeio largo de cimento. Num compasso lento, incomodamente ritmado. Como se cada passo os aproximasse mais e, ao mesmo tempo, engolisse cada dia que viveram afastados.

Os prédios altos, todos iguais, cercavam-nos como o tempo, aquele gigante imenso e assustador que os diminuía. Os olhos vagueavam no chão entre a berma do passeio e as escadas dos prédios desertas. De mãos nos bolsos, também elas vazias do que dizer. Escondiam-se no confortável tecido das calças ou do casaco de cabedal. Também as palavras esconderam-se cobardemente, primeiro no trabalho. 

Margarida falou do projecto na Grande Barreira do Coral e Afonso explicou os avanços da farmacêutica no combate da diabetes. Mas nenhum dos dois estava interessado nesta conversa e, rapidamente, o assunto resvalou para a família.

Sempre mais reservada, Margarida deixou Afonso falar. Falou da mulher, Cristina. Na constante dificuldade em conjugar horários com ela e em como andavam sempre desencontrados. Questionava-se se era assim mesmo um casamento com filhos, diálogos interrompidos e esquecidos entre agendas de compromissos e obrigações de aulas de ballet, banhos e histórias para adormecer. Um cansaço mitigado pela ausência de tempo e de espaço para tudo. Perguntava a si próprio se a filha seria feliz ou se sofria num isolamento perpétuo do que deveria ser a partilha a três.

- Tu nunca tiveste esse problema – atalhou repentinamente em jeito de desabafo enraivecido - trabalhar com o marido deve ter sido mais fácil. Vê-se que o Richard foi uma criança feliz.

Margarida escutou-o com a certeza que se iria arrepender do que iria dizer.

- Estamos separados há 3 anos.

Afonso parou-a com o braço bruscamente. Um candeeiro de rua iluminava-os com uma luz fraca e um cão ladrava à sua volta perante a indiferença dos dois. O rosto ficara quase inexpressivo, soltando apenas «pensei que eras muito feliz».

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publicado às 23:22



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