Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Histórias sem Fábrica

por Closet, em 04.05.11

Bom... e como ando com pouco tempo para escrever exclusivamente para aqui (na verdade estou atulhada de coisas para escrever para  meu curso de escrita)... deixo uma continuação dos meus retalhos que vou escrevendo sempre que me apetece! Para quem gostar de historias :)

 

Depois da história que começou nas nuvens aqui, vem a continuação !!

 

Era só “mais um restaurante italiano”, pensava enquanto esperávamos a mesa para nos sentarmos. Joana fazia questão de experimentar todos os restaurantes novos que abriam em Lisboa, bastava sair na Time Out e lá ía ela desde que o valor médio de consumo não fosse exorbitante. Nesta noite, concretamente, lá estávamos nós, numa sexta-feira, esbaforidas depois de um dia de trabalho e à espera de uma mesa num minúsculo restaurante na Ajuda. De vez em quando esboçava um sorriso para não a desanimar perante o seu olhar suplicante para esperarmos mais um pouco. Já eram 21 horas e o meu estômago rangia mais do que uma porta de madeira do século XVIII, quando finalmente um sujeito baixo gaguejou qualquer coisa como “po-po-podem se-se-seguir-me” olhando-nos de alto a baixo como se fossemos pedintes.

Percorremos o hall estreito que dava para uma sala ampla com mesas para 4 e 6 pessoas intercaladas com outras quadradas apenas para duas.

A sala estava iluminada por pequenos candeeiros de parede com lâmpadas em forma de vela e decorada de forma simples, as mesas com as típicas toalhas aos quadrados vermelhos e brancos e uma vela pequena ao centro. Os copos elegantes de pé alto pediam vinho tinto para acompanhar o que já se encontrava na mesa: azeitonas, presunto e queijo.

- De-de-desejam algo pa-pa-para be-be-beber? – gaguejou o sujeito baixinho, de cabelo escasso em cima e penteado com gel todo para um lado.

Contive um riso no exacto momento em que vislumbrei o olhar sério da Joana que se apressou a disfarçar pedindo conselhos sobre os vinhos. Enquanto ele lhe explicava a carta com a lentidão que o caracterizava, e nessa altura percebi a possível explicação do tempo de espera naquele restaurante, resolvi ir à casa-de-banho lavar as mãos e dar uma vista de olhos pelo resto do restaurante.

Havia outra sala mais pequena ao lado, com uma passagem em arco, e ao fundo o que devia ser a entrada para a cozinha escrito na porta “Reservado ao Pessoal”. Como se alguém que ali estivesse quisesse ir para a cozinha fritar uns bifes, pensei e reparei no seu interior através da abertura ao lado que terminava num balcão largo onde a os pratos eram depositados. Do lado direito as casas-de-banho estavam bem identificadas.

Mal saí, fui abalroada por um tabuleiro com chávenas de café que me bateu no peito e caiu estridente no chão.

- Upsss… desculpe – reagiu o empregado desastrado, de avental vermelho da casa, enquanto verificava se eu não me tinha sujado – queimei-a?

Aqueles olhos verdes mesclados eram-me familiares. O cabelo loiro despenteado e a pele bronzeada. Tinha a certeza que os conhecia de qualquer lado, mas não naquele contexto. Olhou para mim fixamente e abanou de seguida a cabeça baixando-se para apanhar as chávenas do chão, e eu baixei-me também.

- Eu conheço-te… - escapou-me assim sem pensar.

- Sim, acabei de lhe acertar com um tabuleiro, lembra-se? – Sorriu piscando o olho ainda de cócoras.

Naquela altura não tive dúvidas. Ele estava diferente, com a barba feita e um aspecto limpinho e arranjado, mas era ele, o indivíduo que tinha viajado a meu lado para Nova Iorque no Verão passado.

- Sim, reparei, mas não me acertaste na cabeça… - sorri embaraçada – acho que foste sentado a meu lado para Nova Iorque no Verão passado, lembras-te?

Perante o ar admirado dele, comecei a sentir-me ridícula e a pensar seriamente que poderia estar enganada. E que, se assim fosse, muito provavelmente o rapaz pensaria que eu estava a engata-lo. Olhava-me de alto a baixo como se fosse comprar um carro novo e estivesse a inspeccionar cada detalhe. Eu comecei a sentir-me a corar e dei por mim a endireitar o tronco, a encolher a barriga e a ajeitar o top por cima dos jeans, como se ele me estivesse a catalogar.

- Hummm… - disse enquanto pousava o tabuleiro no balcão desinteressado – não me lembro.

Já irritada, afinal eu estava a passar por uma idiota perante aquele sujeito magrelas, de t-shirt preta e calças de ganga russas descaídas, e aindaenfeitado com um avental.

- Então foi engano, desculpe - Voltei-lhe as costas contendo a raiva entre os dentes e segui para a minha a mesa sem olhar para trás.

Podia jurar que era ele, não me tinha esquecido da sua voz aveludada, dos olhos expressivos que sorriam sem autorização.

- Que se passou? – perguntou Joana apreensiva – Nunca mais voltavas, pedi lasanha para as duas.

- Fizeste bem, tive um pequeno contratempo a sair da casa-de-banho – respondi-lhe petiscando umas azeitonas.

- Meteram-se contigo? – gracejou. Joana tinha a mania desde o secundário  que todos se metiam comigo, apenas porque eu era mais extrovertida que ela e, por alguma razão, as coisas mais bizarras aconteciam comigo.

- Na verdade fui eu que me meti com alguém – resmunguei - colocando o guardanapo no colo – e ainda por cima levei com um tabuleiro em cima…

- O quê? – Joana olhava-me espantada – Deram-te com um tabuleiro? Mas o que é que foste dizer?

Fiz-lhe sinal para se calar quando vi o empregado gago a chegar com as lasanhas.

- Espero que esteja tu-tu-tudo do vosso a-a-agrado – gaguejou pousando os tabuleiros na mesa, quando uma voz por detrás o interrompeu.

- Claro que está, e ainda posso aconselhar-vos para acabar a noite em beleza, a melhor caipirinha ali num bar abaixo com música ao vivo.

Era o parvo do empregado que tinha viajado comigo. Uma sala cheia de gente para ser atendida, uma fila à porta à espera para entrar e ali estava ele, com aquele ar de gozo escarrapachado na cara, a mandar-nos para um bar.

- Não me parece – apressei-me a responder com ar carrancudo – nem que fosse lá o Jim Morrisson.

Joana pisava-me o pé intrigada com o que se estava a passar. Os olhos dela perseguiam os meus que fingia nem reparar, enquanto me servia.

- Hum… que bar é esse? – perguntou Joana no intuito claro de ser simpática, mesmo depois de levar uma cotovelada minha.

Novamente o sorriso rasgado que me irritava. Os olhos verdes mesclados davam-lhe uma expressão atraente, sem dúvida, e a voz aveludada um toque especial. Nessa altura reparei que Joana sorria embeiçada por ele e devo admitir que uma mistura de raiava e ciúmes começou a tomar conta de mim.

- Deixo aqui o cartão, é já ali em baixo – disse, entregando-lhe um cartão que tinha no bolso. De repende cravou os olhos nos meus e disse:

– E já agora, Spunik, aparece que é como se o Jim estivesse lá!

E desapareceu sem me dar oportunidade de lhe responder. Afinal a criatura lembrava-se de mim e estava a gozar com a minha cara. Ou será que só se lembrou depois? Mas porque raio nos convidou para ir aquele bar? As dúvidas fustigavam-me o cérebro no preciso momento em que reparo na Joana a olhar-me daquela forma inquisidora e impaciente.

- Hello? Volta à terra, vá, vá desembucha… quem é ele?

Contei-lhe da nossa viagem há um ano atrás, como ele me tinha irritado e ao mesmo seduzido com o seu sentido de humor. Ele estava diferente, mais arranjado com a barba feita e o cabelo mais penteado, mas de resto parecia igual, com aquele ar esgazeado e sempre pronto para uma piada.

- Mas não o viste mais? Lá por Nova Iorque, nunca?

- Nunca – respondi – nem sei o nome dele.

A lasanha estava deliciosa e como sobremesa o nosso amigo gago sugeriu-nos tiramisú.

- Molto buono! – conseguiu dizer sem gaguejar.

Cheguei a pensar que se ele falasse sempre italiano talvez não gaguejasse e, com alguns conselhos de imagem, até conseguia ter o seu charme. Rimos as duas e partilhámos um tiramisú seguido de um capuccino também “molto buono” como nos repetiu piscando o olho por detrás das lentes cheias de dedadas.

A sala já não se encontrava mais vazia, com duas mesas livres e algumas já estavam na sobremesa. Enquanto a Joana foi à casa-de-banho, aproveitei para espreitar a sala ao fundo na esperança de ver o meu antigo companheiro de viagem, mas fui rapidamente apanhada pelo empregado gago.

- O Pe-Pe-Pedro já foi – disse enquanto me entregava a conta - sai sempre às 23h porque vai para o bar.

Enchi-me de coragem e perguntei:

- Mas que bar é esse? Ele também trabalha lá?

O empregado abanava a cabeça sorrindo.

- Pen-pen-pensei que o co-co-conhecessem. Ele ba-ba-basicamente não trabalha… - e deu uma gargalhada irritante que me deu vontade de lhe virar as costas e manda-lo passear, mas precisava dele…

- Não trabalha como? Ele não estava aqui a servir à mesa? – perguntei já irritada enquanto vestia o casaco.

- Sim, sim… - abanava a cabeça enquanto levantava a mesa – é pa-pa-para pa-pa-pagar cervejas aos a-a-amigos.

Joana chegou e eu disse-lhe que já tinha pago. Aquele empregado já me estava a tirar do sério e não suportava ouvir nem mais um gaguejo.

- Calma – Retorquiu – acho-te muito tensa… o que se passa?

Não me apetecia confessar que estava morta de curiosidade por saber quem era de facto aquele misterioso Pedro.

___________________


Por entre uma porta estreita verde escura um porteiro deixou-nos entrar. Era um bar pequeno com pouca visibilidade devido às nuvens de fumo de cigarros que povavam o ar tornando-o quase irrespirável. Ao fundo havia um palco com uma bateria e do lado esquerdo um balcão apinhado de gente a pedir bebidas servidas em copos de plástico rígido.

Escolhemos uma mesa vazia a um canto e sentámo-nos num banco de pé alto pouco confortável. Joana deixou-me com as malas ao colo para ir à casa-de-banho., graceando:

- Vamos ver se agora sou eu a agredida – e atirou-me um beijo.

Quase de imediato, um empregado com pouco mais de 20 anos, todo vestido de preto, chegou com duas caipirinhas de aspecto delicioso.

- É oferta da casa – disse colocando as bebidas na mesa redonda, não me dando sequer tempo de responder. Confusa, limitei-me a sorrir em agradecimento, remexendo as palhinhas amarelas esmagando a lima.

- Afinal, sempre vieste! - Pedro surgiu de repente de lado assustando-me.

Tinha um ar de quem tinha derrotado um bando de vilões e ergueu um copo em gesto de brinde puxando um banco para se sentar.

O seu à vontade irritava-me, quem é que ele pensava que era?

- Tive de ver de onde vinha a tua fortuna… se o restaurante paga as cervejas aos amigos, este paga… o quê? Os tremoços?

Aquilo saiu-me e pressenti desde logo que fui cruel. Claro que recebi um troco nada fácil de digerir .

- Aqui não se comem tremoços, apenas amendoins…ahhh e tostas. Mas dá para pagar sim, esses que estás a comer e a bebida que pedi para te oferecerem! oh shit – e bateu na testa abanando a cabeça - é o meu salário inteiro de um mês nessa caipirinha, mas deixa, eu sobrevivo – e fez sinal ao barman para lhe entregar outra bebida.

Um silêncio perturbador reinou à nossa volta, não consegui enfentar os seus olhos que faiscavam contra os meus.

- Então e tu, doutora, o que fazes na vida? Algo que irá salvar o mundo??

- Sim, completamente, o meu mundo sem dúvida! – e enterrei a cara no copo para não o enfrentar.

Pressenti o seu olhar pacientemente pousado em mim, à espera de uma resposta melhor.

- Ok. Sou jornalista mas não sei bem o que quero fazer. Na prática, nem sei bem se quero ser jornalista… Fiz um curso em NY de foto-reportagem mas não consigo qualquer hipótese de viajar pelo mundo…

- Queres fugir, portanto – riu-se e segurou a minha mão fazendo-me estremecer – estás à procura de quê? O que querias que acontecesse agora, aqui?

- hummm – hesitei – sei lá escrever um best seller de culinária, ser raptada para uma ilha nas Bahamas, fotografar e espectro do Jim Morrisson…

- Nada mau… talvez possa ajudar-te afinal.

- O quê? Consegues ressuscitar o Jim?

- Muito melhor…

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:03


4 comentários

Sem imagem de perfil

De Tiago a 05.05.2011 às 00:23

Continuo sempre assíduo.
Mais uma brilhante intervenção, agora em jeito de coincidência/reencontro. Adorei
beijos
Imagem de perfil

De Closet a 05.05.2011 às 22:54

São os meus Retalhos Tiago... um dia junto-os e ...sairá qualquer coisa!
beijinhos
Sem imagem de perfil

De Diogo a 06.05.2011 às 11:19

Fi-fi-fi-fi-ficou mu-mu-muito bom!

;)
Imagem de perfil

De Closet a 09.05.2011 às 01:27

o-o-obrigadaaaa ;)

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Maio 2011

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031