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Descalça

por Closet, em 19.04.11

 

«Nunca te deixarei» disse-lhe um dia a voz aveludada que a embalava. E ela acreditou, com a inocência e doçura como só num primeiro amor se acredita. Acreditou nos abraços que a envolviam, nas palavras que sufocavam beijos.

Depois ele deixou-a de repente, numa manhã triste incolor. Não se recorda o porquê, apenas tem tatuado a dor. O golpe no peito selvagem assustado, a desilusão e o medo. O coração que transbordava ingenuidade, agora frio e estragado, gritava «Gosto tanto dele». Vagueava angustiada sem saber o que fazer. Por onde seguiriam os seus pés, que caminhos iriam percorrer?

Andaram descalços, pisaram ruas abandonadas, sangraram a saudade que só o primeiro amor rasga na pele e a deixa para sempre cicatrizada. Choraram mágoas e silenciaram incompreensões. Calejados, encontraram um caminho numa estrada firme que os acolheu.

E foi descalça, anos depois, que ela o reencontrou. Não se lembra se num vão de uma escada perdida, ou num beco sem saída, num qualquer lugar recôndito do mapa. Encontraram-se no impossível e com lâminas afiadas dilaceraram corpos, sedentos do tempo perdido, confusos, carentes. Magoados. E no impossível, amaram-se outra vez. Descalços, ambos frágeis de sorte e de tempo.

«Nunca te deixarei» repetiu-lhe a voz que, todos aqueles anos, adoçava-lhe os sonhos ao adormecer.

Mas partiu outra vez. Numa tarde embrulhada em novelos de raiva, tristeza e amor. Partiu, com a mesma violência com que chegou. Na tempestade de emoções, inusitada, que só um grande amor pode causar. Ele deixou-a, uma vez mais. Descalça de angústia e medo. Deixou-lhe o sabor na boca, o cheiro do corpo quente e o vazio dos braços que ocupavam todo o seu mundo em qualquer lugar. Deixou um silêncio profundo e descalço. «Gosto tanto dele» repete ainda, pulsando-lhe no peito uma insanidade incontrolável.

O silêncio tem destas coisas, traz consigo as dúvidas que pisam, num círculo repetitivo, o corpo dormente e indomável.

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publicado às 18:01


2 comentários

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De Natacha a 19.04.2011 às 22:40

... chego à conclusão de que cada amor é um primeiro amor, mesmo que mais maduro...


(suspiros e sorrisos)


Um beijinho
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De Closet a 22.04.2011 às 00:32

humm... eu acho que não... há um que ocupa o 1º lugar, destacado, por mais anos que passem... cmo Miguelesteves Cardoso diz, que "ocupa tudo, estraga o coração e o deixa estragado". Já escrevi algo sobre este texto aqui http://omeucloset.blogs.sapo.pt/102193.html
Beijinhosss

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