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Fábrica de Histórias

por Closet, em 10.04.11

Nada como o amor no espaço

O meu lugar era a meio do avião, junto à janela, como tinham garantido no check-in. Tirei o livro da mochila e coloquei-a no compartimento por cima do meu lugar. Preparava-me para começar a ler quando um sujeito, ainda com ar esgazeado de sono, interrompeu-me.

- Sou aqui ao seu lado, importa-se que passe a sua mala para o compartimento ao lado, que está quase vazio, para a minha mochila caber aqui?

Ora mochila dele, com ar sebento e aspecto proveniente da 2ª Guerra Mundial, era, de facto, enorme. Mas mesmo assim achei que coubessem lá as duas com jeitinho, afinal a minha 'mala', como ele lhe chamou, era uma mochila pequena e citadina.

- Penso que cabem as duas - respondi-lhe a sorrir - Eu não me importo que a minha 'mochila' fique apertada.

- Bem, sendo assim.... – interrompeu com a voz rouca e sorriso trocista - vão ter mais intimidade que a maioria das pessoas casadas há mais de uma ano… - e continuou com aquele ar alucinado – imagine, 8 horas seguidas entrelaçadas, alças a penetrarem umas nas outras, fechos a roçarem, bolsas a tocarem-se impunemente. Hummm... E tudo isto no escuro, quase sem respirar, mesmo por cima das nossas cabeças… Uma orgia invejável, não te parece?

E agora já era "te parece". Como se fossemos amigos de longa data... Fingi não achar graça, controlando o riso com uma tosse seca.

Ele fechou o compartimento com uma certa dificuldade e deixou-se cair pesadamente a meu lado. Podia jurar que não dormia há mais de três noites seguidas. O cabelo, cor de palha, um pouco comprido e ondulado, não conhecia um pente há semanas, e a pele, demasiado morena para aquela altura do ano, denunciava uma vida ao ar livre. Cheguei a pensar que tinha passado os últimos dias a dormir ao relento na praia. Os olhos escondiam-se por trás de óculos escuros espelhados, tirando-os apenas para colocar as mochilas. Não percebi bem o seu tom, estavam inchados, mas reparei que tinham uma cor indefinida, talvez um verde mesclado. Mesmo assim, eram expressivos, a maneira como os abria e fechava, como ziguezagueavam enquanto proferia aquela enxurrada de disparates.

Tinha um corpo alto e esguio por baixo das calças de ganga russas, descaídas e largas e uma sweat preta deslavada com uma qualquer banda de música estampada. A barba de 3 dias por fazer, e o cheiro a tabaco e gin faziam-me acreditar que tinha vindo directo de um bar de frequência duvidosa.

Mesmo assim, não lhe consegui ficar indiferente, por isso retomei a conversa paranormal com a maior naturalidade:

- Sim, sem dúvida vão divertir-se muito mais do que nós.

- Bem... não seja por isso – esticou o pescoço e colocou os óculos na cabeça mostrando-se muito interessado – Olha, há ali ao fundo do corredor uma casa-de-banho, estás a ver? – e aponta para o fundo do corredor – um pouco desconfortável eu sei, mas acho que cabemos lá os dois, assim também apertadinhos!

Ao ver o meu ar enfadado apressou-se a colocar um ar sério, enquanto os olhos espelhavam gozo – Ah, pois... lá não dá para desligar as luzes, não tinha a mesma graça.

E recostou-se colocando novamente os óculos escuros. Acreditei seguramente que o sujeito ainda vinha com efeitos da noite a percorrer-lhe o sangue. Coloquei o cinto e o meu livro por cima das pernas para lhe mostrar que não ia existir qualquer espaço para conversa. Ele reparou, levantou os óculos e lançou um olhar trocista entortando o pescoço para ler o título 'Sputnik meu amor'.

- Uiii…. Nada como o amor no espaço… - Escapou-lhe de imediato, revirando os olhos de riso.

Arrependi-me naquele segundo de ter trazido aquele livro. O tipo não perdia uma e eu até tinha de admitir que tinha graça. Estupidamente com graça, mas não consegui evitar um sorriso, mesmo sabendo que ele me podia custar atura-lo com mais disparates o resto da viagem.

Finalmente descolámos e nesse momento ainda ouvi um ridículo “Iuhuuuu... Sputnik, cá vamos nós”.

Como seria de esperar, o tipo não estava só de ressaca, mas também com a noite em branco. Ainda não tinham passado 20 minutos e já ele estava a dormir como uma pedra, descaindo constantemente a cabeça para o meu ombro. Por mais que o empurrasse nada o fazia acordar. “Era só o que me faltava” pensei, “com sorte tenho de passar 8 horas com um tresloucado desconhecido, a tresandar a cigarros e álcool, estatelado a roncar e a babar no meu ombro”.

E assim foi a viagem inteira. Com uma breve pausa para almoçar (que tenho a impressão que o fez de olhos fechados) e uma ida à casa-de-banho numa espécie de sonambulismo atrás de mim (e nessa altura ainda receei que estivesse com a ideia parva de partilha-la comigo, experimentando a mesma intimidade das nossas mochilas…). Mas ele esperou e entrou só depois. Confesso que tive algumas esperanças que adormecesse por lá ou não conseguisse voltar ao lugar, qualquer coisa servia desde que me livrasse dele. Para azar voltou, ajudado por uma hospedeira de lábios grossos pintados de vermelho vivo, e apenas balbuciou antes de continuar no seu sono de belo adormecido em cima de mim.

- Esta não dava pica… muito escanzelada.

Faltavam 30 minutos para aterrarmos quando resolveu acordar do seu sono profundo. Espreguiçou-se ruidosamente e ainda teve o desplante de dizer:

- Que bela viagem - continuando a bocejar.

- Só se foi para ti – resmunguei - eu tenho um hematoma no ombro com toda a certeza... Pela primeira vez ele pareceu-me um ser humano e não o allien que tinha passado 8 horas a meu lado, e vi nele algo semelhante a um rosto envergonhado.

- Peço desculpa - olhou para o meu ombro de camisa amarrotada tocando-lhe ao de leve – sinceramente não tinha intenção de massacrar-te a viagem toda.

A sua voz, de repente, parecia educada e sincera, longe dos gracejos anteriores, sobressaindo um tom rouco aveludado, quase sensual.

- Esquece, devem existir pomadas em qualquer farmácia de Nova Iorque.

De certa forma aliviado com a minha reacção, comportou-se de forma normal até aterrarmos. Quando nos levantámos cumprimentou-me como se estivesse a ver-me pela primeira vez, assim à laia de balconista de hotel:

- “Welcome to New York!

E esticou-se abrindo o compartimento das mochilas para voltar a fechá-lo de repente. De óculos na cabeça, olhou-me horrorizado.

- Ainda não estavam vestidas - e desatou a rir.

Soltei uma gargalhada incontrolada. Afinal os disparates não eram resultado do sono ou do que tinha ingerido, ele era mesmo louco. Abriu novamente o compartimento, teatralizando gestos de receio a espreitar e finalmente entregou-me a mochila.

- Hummm… - olhei-a atentamente – deve ter sido bom…parece, como hei-de dizer?

 – Satisfeita? - Piscou-me o olho, rasgando um sorriso mágico - E haverá algo melhor que fazer amor nas nuvens?

Não consegui evitar sorrir.

Separámo-nos no aeroporto com “até um dia” e vi-o desaparecer no meio da multidão. Um andar calmo e a sua velha mochila às costas pendurada com uma só asa. Não parou para levantar bagagem de porão e eu fiquei ali estática, por segundos estranhos, incompreensíveis, a acenar-lhe com o olhar. Aquele homem alucinado, de voz rouca aveludada, ridiculamente louco e adorável. O que faria ele ali? E dei por mim a abraçar a mochila contra o peito, como se estivesse a abraça-lo, numa espécie de despedida de um sonho do qual se acorda ainda com imagens nítidas, mas confusas e desordenadas.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias (reescrito a partir de um texto meu, dos meus Retalhos)


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publicado às 22:31


8 comentários

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De Ivete a 11.04.2011 às 02:10

E eu gostei muitooo!!! :))
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De Closet a 12.04.2011 às 11:18

Obrigada Ivete! estes dois ainda têm uma história pela frente ;)
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De Nessie ♥ a 11.04.2011 às 15:50

Oh :$... Ok eu posso dizer eu sou uma lamechas sim... Mas istoo esta tao perfeitoo... Oh Gosh amo e amei ler istoo
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De Closet a 12.04.2011 às 11:17

Obrigada Nessie :)
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De Diogo a 12.04.2011 às 10:41

Huhuhuhu!!

XD e a caminho de NY,want perfect than this!?!?
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De Closet a 12.04.2011 às 11:17

Darling... era "Só" a viagem e... máximo de 1000 palavras (que acho que ultrapassei...upsss).
E tive pouco tempinho para... pormenores!! kiss kiss
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De Natacha a 16.04.2011 às 23:26

Querida Closet,


... até para ser mala é preciso ter sorte (risos)


Adorei, o que já vai sendo um hábito e um hábito muito agradável ;)


beijo
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De Closet a 18.04.2011 às 01:18

estas malas são umas verdadeiras sortudas, isso sim!!
Beijinhos e obrigada!

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