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Fábrica de Histórias

por Closet, em 02.04.11

 

 

Apatia

 

Arrasta os pés num sonambulismo robotizado. Deambula por mundos distantes, foge das dúvidas e decisões. Os olhos caminham no chão cinzento riscado, abandonados. Contam os degraus das escadas sujas, perseguem os passos largos e apressados do vulto da frente que se afastam rapidamente. Depois um bater de saltos finos, irritantes, ultrapassam os seus numa correria. Indiferente, continua a marcha lenta, o ritmo da solidão, alheia ao zumbido das vozes que a rodeiam, aos corpos fantasmas que embatem no seu.


Ao longe reconhece alguém na multidão e finge não ver. Não pretende falar nem sorrir, não lhe apetece existir. Enterra a cabeça num livro que abre e folheia desinteressada, enquanto vagueia pelas palavras que não lê. Deixa-se levar, empurrada, sem perceber.

Sentada, a cabeça segura no vidro, os lábios secos e o olhar envidraçado persegue o vazio de costas. Confronta-se com uma criança ao seu lado, de cabelos negros e nariz arrebitado, que lhe pergunta inesperadamente «Estás a chorar?». Não sabia. Era um dia escuro, confuso, apagado.

 

Era sombra reflectida numa parede esquecida, cansada de respirar. Num instinto primário, vegetativo. Sem perguntas. Sem receios. Sem pensar. Como o caminho que faz de olhos vendados. A estação certa, a prisão das horas e dos lugares. A urgência de partir e de chegar. A qualquer lado marcado no calendário infernal.

 

Chega no final do dia e atira o corpo esgotado para cama ainda desfeita. Admirada como ali chegou, não se recorda por onde passou. A dúvida persiste, latejante, «onde irá a seguir?»

Uma escuridão medonha, sombria. Um corpo inerte, estéril de sentir. Como se estivesse sentado no parapeito alto da janela, sem medo de cair.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

 

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publicado às 22:31


8 comentários

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De Natacha a 03.04.2011 às 16:17

Já sei... entraste na minha alma e nela te inspiraste para escrever este texo! Não?? Ahh, pois, inspiraste-te na foto, claro...


Bom, mas isto para dizer que o teu texto espelha os meus dias recentes, ando numa espécie de piloto automático e dou por mim sem saber bem por onde passei até chegar onde estou...


São fases :)


Adorei, como sempre. Bem escrito, muito bem... o teu professor deve estar orgulhoso :)


Beijinhos
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De Closet a 04.04.2011 às 12:33

upsss... apanhaste-me!! eheh
... acho que todos temos fases assim de apatia, desalento, "sem medo de cair porque não nos sentimos vivos" (foi isso que vi na foto)... efim, fases de "piloto automático!
Quanto ao meu professor, com os trabalhos que tenho sempre em atraso não se orgulha muito, acredita!! Na verdade, é com cada crítica!! Mas espero po-lo a rir com uma história que lhe enviei ontem entre o Minotauro e a Medusa, nos tempos modernos! Bjs
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De viajanteintemporal a 03.04.2011 às 23:29

É engraçado seguir os caminhos por onde levas as histórias.
Bonito.
Um beijo.
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De Closet a 04.04.2011 às 12:42

São caminhos "comuns"... não achas?? Sinceramente a foto perturbou-me mais do que me descansou... uma criança sentada à noite num parapeito com as pernas para fora... surgiu-me solidão, desalento, desapego, alguém que não tem medo de cair... pronto, foi isso!
Beijos
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De Cláudio a 05.04.2011 às 02:44

Acho que nunca disse(desculpa), gosto muito da tua forma de escrever, tem ritmo. E este texto tem ritmo e poesia. 
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De Closet a 05.04.2011 às 22:53

Obrigada Claudio! A tua Edna também é deliciosa. Acho que este texto tem o ritmo do "desalento", é um sentimento que por vezes experimentamos todos, não é? 
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De Ametista a 05.04.2011 às 17:23

Adorável, como sempre..
Adoro ler-te, Closet..

Um grande beijinho :)
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De Closet a 05.04.2011 às 22:54

Obrigada Ametista! Um grande beijinho :)

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